A escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir dizia que a mulher não nasce, torna-se. Isto significa que ser mulher é uma construção histórica que vai muito além da genitália feminina. Não cabe aqui uma discussão de gênero, vou apenas tratar de uma breve biografia de três mulheres vietnamitas que, apesar de viverem em sociedades fortemente patriarcais, destacaram-se na luta contra o imperialismo.

Pintura das Irmãs Trung montando elefantes de guerra

 Aqui cabem algumas considerações. Quando falamos em Vietnã, geralmente lembramos a famosa guerra que ocorreu nas décadas de 1960 e 1970, envolvendo uma aliança entre soldados norte-americanos e sul-vietnamitas contra os norte-vietnamitas. Mas não é deste período que vamos tratar, assim como o imperialismo citado acima não é aquele associado aos Estados Unidos. Vamos um pouco mais além ao tempo e espaço, para conhecer a história das guerreiras Trung e Triêu Thi Trinh.

As irmãs Trung foram líderes militares vietnamitas que conseguiram repelir invasões chinesas por três anos seguidos. Elas são consideradas heroínas nacionais no Vietnã. Elas nasceram no século I, durante os mil anos de ocupação chinesa. Após lutar contra uma pequena unidade chinesa na aldeia em que viviam, elas montaram um exército formado exclusivamente por mulheres. Dentro de poucos meses, elas tomaram de volta muitas aldeias das mãos dos chineses e libertaram o Vietnã. Elas se tornaram rainhas e repeliram os ataques chineses durante dois anos. No entanto, a China armou um grande exército para esmagar as irmãs e, apesar do esforço das mulheres guerreiras, o exército chinês foi vitorioso. Para evitar humilhação nas mãos do inimigo, as irmãs Trung cometeram suicídio, afogando-se no rio Day.

Triêu Thi Trinh foi uma guerreira vietnamita do século III, que conseguiu resistir às forças de ocupação do Reino Wu. Ela nasceu na província de Thanh Hoa, no norte do Vietnã. Quando ela nasceu, sua província era controlada pelo Reino Wu, um dos três grandes reinos da China. Triêu ficou órfã muito cedo e foi tratada como escrava até os 20 anos. Ela conseguiu fugir para a floresta e montou um exército de 1000 guerreiros, entre homens e mulheres. Com este poderio, conseguiu libertar uma área do Vietnã do domínio chinês. Com 23 anos, já havia derrotado por volta de 30 batalhões Wu. Alguns documentos dizem que Triêu surgia em batalha montada em um elefante, vestindo uma armadura dourada e brandindo duas espadas.

Creio que não é exagero afirmar que a maioria dos leitores e leitoras não conhecia a história das guerreiras vietnamitas. A maioria dos livros reserva pouco espaço para tratar das mulheres, menos ainda para tratar de locais tão específicos como o Vietnã. Porém, ouso dizer que – perdoem o clichê – as guerreiras vietnamitas servem de exemplo para mostrar a força e a fibra que existem no coração de cada mulher.

Este artigo foi publicado no Jornal A Tribuna.