Este ensaio sobre Sócrates e a essência do conhecimento foi produzido por Michel Goulart, Mestre em Educação, Especialista em Didática e Metodologia, Bacharel e Licenciado em História, Bacharel em Arqueologia, editor do blog História Digital.

Um Ensaio sobre Sócrates, Teeteto e a Essência do Conhecimento

“Algo em tua alma deseja vir à luz” (Sócrates)

A História da Filosofia resolveu classificar os primórdios do pensamento filosófico na Grécia Antiga (séc. VII a.C. e V a.C.) em: Filosofia Pré-Socrática e Filosofia Socrática. Esta classificação, por si só, mostra a importância de Sócrates de Atenas (469 a.C. – 399 a.C.) para a história do pensamento.

Sócrates e a essência do conhecimento

Sócrates, um senhor de nariz chato e olhos saltados

Como bem sabemos, Sócrates não nos deixou nada escrito, tendo seu legado ficado para a posteridade através dos Diálogos de Platão (427 a.C. – 337 a.C.), como Críton, Fédon e Teeteto. Este último apresenta o diálogo entre Sócrates e o jovem Teeteto sobre a estrutura e natureza do conhecimento e um dos grandes méritos deste diálogo é tratar da relação entre verdade e relativismo. Porém, talvez o maior mérito seja apresentar a natureza do  método utilizado por Sócrates para chegar à verdade.

Teeteto era um jovem militar, filho de Eufrônio de Símio. Teodoro, um dos interlocutores no diálogo, apresenta Teeteto como muito semelhante, fisicamente, a Sócrates: “Parece-se contigo em ter o nariz chato e os olhos saltados. […]” (p. 37). Tendo ouvido falar sobre os atributos intelectuais de Teeteto, Sócrates resolve questioná-lo sobre o que é conhecimento. Inicialmente, o jovem relaciona conhecimento com sensação, ou seja, apreensão da realidade através dos sentidos. Esta definição é extraída da obra “Sobre a Verdade”, do sofista Protágoras de Abdera (487 a.C. – 420 a.C.). Também é atribuído a Protágoras a frase: “O homem é a medida de todas as coisas; daquelas que são, por aquilo que são; daquelas que não são, por aquilo que não são”. A frase apresenta um carga de subjetivismo extremo, sendo que alguns autores atribuem a ela a base do relativismo universal.

Sócrates discorda da definição inicial de Teeteto pois, para ele, sensação não é essência, e o filósofo ateniense desejava saber qual a essência do conhecimento. Sócrates ironizou esta definição, dizendo que, se a sensação é a medida de tudo, e os animais também experimentam sensações, um porco pode ser a medida de todas as coisas. Aliás, a crítica de Sócrates ao pensamento de Protágoras vai além, pois, segundo ele, se cada um é a medida de todas as coisas, para que se dar ao trabalho de aprender algo? Assim, para Sócrates, a verdade de Protágoras não era assim tão verdadeira.

Neste contexto, Sócrates aponta os riscos da juventude se deixar ludibriar por falsos discursos:

Ainda és moço, meu filho, e, por isso mesmo, fácil de prestar ouvidos a discursos capciosos e de deixar-te convencer. (p. 65)

E prossegue, afirmando que, segundo a definição sofística, “quem viu alguma coisa, adquiriu conhecimento desta coisa.” (p. 67). Para Sócrates, isso não é possível, pois o conhecimento possui uma estrutura complexa, que não poderia ser apreendido meramente pela sensação.

À medida que o diálogo se desenvolve, Teeteto vai trazendo novas definições sobre a essência do conhecimento, reconhecendo que, para além da sensação, percebemos as coisas com a alma. Este, cumpre ressaltar, foi o caminho percorrido por Platão, discípulo de Sócrates, ao criar a Teoria das Formas Ideais e apontando a existência de um Mundo Sensível, imperfeito e transitório, baseado nos sentidos; e um Mundo das Ideias, perfeito, eterno, imutável, fundamentado na razão humana. Mais adiante no diálogo, Teeteto admite que o conhecimento é opinião verdadeira acompanhada de explicação racional.

O diálogo entre Sócrates e o jovem Teeteto esmiúça aspectos relevantes do método socrático, que aprendemos ser baseado na Maiêutica, denominação dada à atividade das parteiras em Atenas. O próprio Sócrates era filho de uma parteira, Fenerete, e nos elucida as características desta atividade ao dizer que

Não servem para exercer o ofício de parteira as mulheres que ainda concebem e dão à luz; mas apenas as que se tornaram incapazes de procriar. (p. 45)

Ou seja, para ser parteira, uma atividade exclusivamente feminina, a mulher tem que ter tido filhos e ter entrado em processo de menopausa. Desta forma, mulheres estéreis não podiam exercê-la. Além disso, a atividade de parteira na Atenas do século V a.C. era carregada de significados, pois as parteiras eram também casamenteiras e sabiam identificar se um filho era legítimo ou ilegítimo.

Desta forma, Sócrates se apropria da atividade das parteiras para revelar a natureza de sua atividade filosófica. Ora, dizia ele,

A grande superioridade da minha arte consiste na faculdade de conhecer de pronto se o que a alma dos jovens está na iminência de conceber é alguma quimera e falsidade ou fruto legítimo e verdadeiro. (p. 47)

Neste sentido, o filósofo dizia que ele próprio não podia conceber a verdade, apenas ajudar a partejá-la nos jovens. Talvez, por este motivo, Sócrates tenha sido condenado à morte por acusação de corromper a juventude, diante do Tribunal de Atenas, em 399 a.C. Este episódio é apresentado no monólogo Apologia de Sócrates, de Platão.

Ao confrontar Teeteto, Sócrates almejava partejar o conhecimento, afirmando: “algo em tua alma deseja vir à luz.” (p. 48). No diálogo, Sócrates parece ter ficado satisfeito com a definição de conhecimento com o opinião verdadeira acompanhada de explicação racional. Porém, vale ressaltar que o filósofo admitia aporia ao tema, ou seja, a incapacidade de definir precisamente o que é a essência do conhecimento. Aliás, esta incapacidade parece ser um dos dilemas da atual gnosiologia.

Ao final do diálogo, Sócrates afirma que a explicação racional, base da estrutura do conhecimento enquanto episteme, tem três significados: tornar claro o pensamento por meio da voz, com emprego de verbos e substantivos; a descrição pela enumeração de seus elementos componentes; e o sinal que distinga de todos os outros o objeto que se trata, pois

Se apanhares num determinado objeto o que o distingue dos demais, apanhaste, como dizem alguns, sua explicação ou definição. (p. 137)

Assim, podemos concluir que, para Sócrates, ainda que a definição da essência do conhecimento não seja possível em sua totalidade, a apreensão do objeto pelo sujeito deve estar fundamentada em clareza, descrição e distinção.

Referência

PLATÃO. Teeteto e Crátilo. Trad. Carlos Alberto Nunes. 3ª Edição Revisada. Universidade Federal do Pará. Gráfica e Editora Universitária: Belém, 1988.