Este artigo é de total responsabilidade da autora e foi escrito por Karine Ferreira, graduanda do curso de História-Licenciatura na Universidade Gama Filho.

As mulheres e as relações de gênero no Brasil quinhentista

Os conceitos: definições, relações e interpretações.

Se hoje é possível fazer e falar sobre a História das mulheres no mundo acadêmico, muito se deve a eclosão da Escola dos Annales – principalmente da terceira geração –, onde há a dedicação a história social/cultural. Não que seja um efeito de causa e consequência. Mas, estes contribuíram e muito com uma ‘nova forma’ de fazer história, dando voz a um agente histórico – a mulher – que por muito tempo não foi reconhecido como tal, desbancando paradigmas positivistas e lançando luzes para campos antes tidos como sem qualquer importância.

(…) ao direcionar as pesquisas do âmbito político para o social, possibilitou estudos sobre a vida privada, as práticas cotidianas, a família, o casamento, a sexualidade etc. Temas que permitiram a inclusão das mulheres na história. 1

No Brasil, a pesquisa acadêmica voltada para o feminino só teve seu início nos anos 70, através do movimento feminista, que procurou abordar a história das mulheres para que fosse divulgada a submissão por estas vividas no decorrer do tempo, os mecanismos de opressão utilizados e as resistências ocorridas durante esse processo, ou seja, o que se pretendia era retirar o véu do silêncio – as mulheres que até então não tinha espaço na historiografia. Sendo assim, criou-se uma história de mulheres feitas por mulheres e só sobre a categoria, “as historiadoras e demais estudiosas, ligadas ao movimento feminista, construíram uma ‘história feminina’ paralela à ‘história dos homens’”. 2

As mulheres no Brasil Quinhentista.

Porém, a própria maneira de escrever e falar sobre a história das mulheres sofreram alterações ao longo de sua trajetória. Dando origem a duas maneiras de se ‘fazer’ essa história: uma corrente defende que não faz sentido isolar a mulher como um sujeito histórico separando-a do próprio contexto em que ela estava inserida. Esses historiadores defendem o conceito de gênero, que propõe a história da mulher envolvida com as relações sociais inegavelmente existentes e seu universo das respectivas épocas; defendem que só assim a trajetória da mulher no tempo ganha significações e reconhecimento. Contudo, há também outra corrente que reivindica a história das – e somente – mulheres, sob a premissa de ainda haver a necessidade de se aprofundar mais na historiografia feminina, silenciada por tanto tempo e que por isso, seria uma atitude muito precoce acrescentar os homens nessa empreitada.

Historiadores concordam que é forte a contribuição da antropologia ao estudo do gênero, uma vez que a mulher só teve acesso à educação – tal como conhecemos – a partir do séc. XIX, tornando sua produção historiográfica estritamente limitada. Essa história misturada à antropologia esteve por muito tempo com a função de retirar da mulher a sua invisibilidade como sujeito histórico3. Embora a história se “interdiscipline” a antropologia e pegue emprestadas suas possibilidades de estudar as mulheres e suas relações por outro viés, a historiadora Miriam Leite, diz que “estudos históricos foram mais lentos que os psicológicos, sociológicos e antropológicos, na contribuição para os estudos sobre a mulher”4. A má interpretação do papel da mulher nos estudos históricos iniciais se deu muito provavelmente pela má interpretação dos documentos oficiais; seguindo as normas da maneira positivista de se fazer entender a história. Ora, uma vez que os documentos oficiais privilegiavam os grandes personagens, há de se fazer entender que houvesse discrepância nos assuntos pertinentes à mulher. A doutora critica também que ainda hoje, há desníveis nos estudos das relações de gênero.

Ainda que em outro nível, continua a haver interdições no desenvolvimento dessa área do conhecimento, através da hierarquização de assuntos. 5

Esse trabalho se propõe muito mais em estudar as relações de gênero, com ênfase na questão da mulher no período determinado. Partilho da ideia de que através do estudo das relações de gênero, é possível se desvencilhar de um paradigma positivista ainda pertinente a esse tipo de pesquisa: mulher versus homem; dominado versus subordinada. Não cabe aqui minimizar os abusos dos mais diversos sofridos pelas mulheres. Mas, acredito que nas relações sociais, no estudo das mentalidades e das práticas sociais é que se desvendam verdadeiras relações de poder. Se prender a uma história das mulheres vitimando-as, seria deveras reducionista. Parece-me correto afirmar que as relações humanas são muito complexas para encurralar diferentes pessoas sob um mesmo padrão. Trata-se de pessoas com culturas diferentes, vivendo em época e sociedades diferentes; ainda mais se tratando do período colonial brasileiro, um tempo em que embora a imposição de valores e comportamentos fosse seu traço marcante, nem todos os seguiam fiel e pacificamente.

Visto quando e em quais circunstâncias o conceito de gênero foi criado, torna-se essencial transportar esse conceito para o Brasil colonial no seu primeiro século pós-Portugal. Afinal, quem é a mulher desse tempo? Para a historiadora e pioneira no assunto, Mary Del Priory, não existe a história da mulher no seu sentido singular. Mas, sim, a(s) história(s) da(s) mulher(es). Dedicando-se em contar a história das mulheres, o livro lançado pela mesma com diferentes artigos e contribuições de diversos historiadores pertinentes à temática da mulher e do Brasil colônia, tem por objetivo na sua apresentação “arrastá-los numa viagem através do tempo, fazendo-os ver, ouvir e sentir como nasceram, viveram e morreram as mulheres, o mundo que as cercava, do Brasil colonial aos nossos dias.” 6  Esse livro expõe ainda a importância da mulher como agente histórico por agir nas camadas sociais, no grupo familiar e nas culturas.7

O Brasil pós-invasão, está pautado numa sociedade intensamente heterógena em termos étnicos: índios, portugueses e escravos africanos; e embora o elemento predominante branco seja de portugueses, ainda podemos adicionar nesse caldeirão os espanhóis, franceses, holandeses e ciganos. Sendo a sociedade constituída de povos com diferentes visões de mundo. Seguindo essa perspectiva, não se pode falar em mulher do Brasil colonial sem compreender que há também múltiplas mulheres que coexistiram nesse tempo/espaço. Vale lembrar também que o conceito de gênero e suas relações modificavam de uma sociedade para outra. Como ocorreu com a sociedade autóctone, que já tinha o seu conceito de gênero disposto. O historiador Ronald Raminelli nos conta em seu artigo do livro já citado História das Mulheres, sobre as “Evas Tupinambás”. Na sua discrição debruçada nas mulheres indígenas, ele nos mostra que essas passavam por diferentes rituais até chegar sua vida adulta, que existia certa relação de solidariedade com seus pares; sendo abrandada a questão da mulher submissa, tão presente na sociedade ocidental e, que depois aqui seria revigorado com o cristianismo. O autor menciona até certo grau de ‘liberdade’ no que diz respeito à representação do casamento entre os indígenas: “Desejando se unir, os varões se dirigiam a uma mulher, viúva ou donzela, e perguntavam sobre sua vontade de casar” 8.

Observando essa questão do casamento em algumas tribos indígenas, pode-se sutilmente comparar ao que era o conceito de casamento e seu reflexo na vida da mulher europeia e suas relações. O que se propôs com essa passagem do artigo de Raminelli, foi apresentar a distância da realidade cultural de sociedades de continentes diferentes. Depois da chegada dos cristãos – e aí começa a mistura com o conceito de religião – as mulheres foram submetidas a um rígido padrão moral perante a sociedade colonial, visando o controle social do Estado e da Igreja. Sobre o controle social, faz-se necessário dizer que refere-se aos vários meios usados por uma sociedade para ‘enquadrar’ seus membros recalcitrantes. Nenhuma sociedade pode existir sem controle social. Sendo assim, com a chegada de cristãos, a representação da mulher e o conceito de gênero teve que mudar. Após a fixação do que seria uma ‘sociedade civilizada’, a Igreja mais do que nunca deveria impor uma maneira de viver moldada aos ensinamentos de Deus através dessa instituição.

Sendo assim, a mulher daqueles tempos coloniais – e assim permaneceria durante bom tempo – deveria ser aquela mulher voltada para as atividades caseiras/domésticas, obedientes ao marido e a Igreja, haja vista que o homem era a representação de Cristo no lar. O historiador Emanuel Araújo nos mostra em seu artigo sobre a sexualidade feminina na colônia, essa tentativa de controle hiperbólico sobre a mulher10. Por isso, a mulher – inclusa num modelo de família patriarcal – estava desde seu nascimento, fadada ao controle dos homens da família. Quando casava, o que ocorreria seria uma ‘troca’ de comando: do pai para o marido. Sob a justificativa teológica baseada em preceitos bíblicos que abarcaria desde o judaísmo até o cristianismo, a mulher estava encurralada entre dois estereótipos: Eva e santa Maria. Demonizada por ser sucessora de Eva e percussora ao lado de Satanás sobre o mal que assolava os homens, a mulher deveria viver em constante observação e exacerbado controle.

A doutrina cristã apresentava como razão para a submissão feminina a própria criação: se o homem não foi criado pela mulher, ela estava numa posição automaticamente submissa. E ela também era a introdutora do pecado responsável pela condenação do homem aos tormentos deste e do outro mundo.11

Ainda sobre a outra face da mulher, era lhe concedida à comparação com a virgem santa Maria. Esta analogia se dá pelo ‘mistério’ – na visão masculina da época – sobre o milagre do poder da mulher de gerar vidas; a maternidade se traduz como uma ponte a pureza, a algo sobrenatural e santificado. Os próprios médicos tentavam subjugar a mulher até mesmo na anatomia de seus corpos; diziam que estas tinham ossos menores e mais redondos, portanto era mais fraca do que o homem. A mulher, não se diferenciava do homem apenas por um conjunto de órgãos específicos, mas também por sua natureza e características morais. 12 Tido como um misto de temor e ódio, as tentativas de explicar a sexualidade feminina eram múltiplas. Havia uma série de regras impostas as mulheres para que elas não fizessem o homem pecar; principalmente no casamento, que era enxergado como um laço eterno e para fins reprodutivos. Tanto isso é coerente que era admissível o homem praticar o sexo com fins ‘prazerosos’ – entendendo-se como luxúria – com as prostitutas, do que com a sua esposa. A mulher casada se limitava aos cuidados da casa e dos filhos; enquanto o homem era o provedor da riqueza para o sustento de todos. Porém, ao mesmo tempo em que a mulher casada estava condenada a viver para e no lar, essa posição serviu-lhe também para fixar um papel de respeito dentro de casa. Isso se deu através de uma aproximação maior com seus filhos e com os assuntos caseiros. Quando o homem não estava em casa, a segunda autoridade era a esposa.

Embora todo o discurso trazido por religiosos do outro lado do Atlântico, em se tratando de uma sociedade composta por pessoas e mulheres tão diferentes, a vida da mulher casada e branca, se difere – e muito – da mulher escrava (africana ou indígena), a mulher pobre, a prostituta. A mulher escrava estava condenada a viver como mercadoria, sendo vista como um produto tanto pelo seu dono, quanto pela própria senhora branca do lar; devia obrigações – predominantemente sexuais – ao seu senhor e a sua sinhá, através do cuidado de seus filhos. Havia casos de certa hostilidade na relação da esposa com a escrava, devido às traições cometidas por seu marido. Além de também ter que trabalhar nos engenhos, nas plantações, nas cidades. A mulher pobre passava por maus bocados, posto que constantemente fossem abandonadas por seus maridos, tinham de se lançar a administração da família, tinham de ir trabalhar; não havendo qualquer amparo da Igreja. Essa concepção da mulher como o centro do lar desbanca a ideia da mulher vitimada, da mulher parasitária diante das situações.

Apesar de a mulher ser apresentada pela historiografia como dependente e comandada pelo marido, com os frequentes abandonos dos homens em suas explorações no desbravamento das riquezas da colônia, acabavam por ficar sozinhas administrando os desígnios de sua própria história.13 

Portanto, podemos observar através dessa visão panorâmica das mulheres que existia um conceito híbrido de desgraça e santidade em torno de sua figura; que embora o discurso de serem inferiores ao homem aos olhos da Igreja e, portanto da sociedade, as mulheres de sexo frágil não tinham nada em absoluto. Trabalhavam em serviços pesados: “Nos engenhos, eram as mulheres que colocavam a cana-de-açúcar para moer e que tiravam os bagaços. Essa atividade era bastante perigosa, pois, devido ao longo tempo de serviço, as escravas podiam cair no sono e ter as mãos presas e decepadas.”14 Tinham de se sujeitar e submeter aos diversos abusos cometidos por seus respectivos maridos; tinham de ser ilustres donas de casa e não podiam frequentar lugares públicos – a não ser para assuntos pertinentes a Igreja. Suportar esse sistema de coisas, não é para sexo frágil. Também devemos observar que entre as próprias mulheres existia um grau de “preconceito”, de superioridade perante as condições sociais das outras. Sendo assim, é pertinente a conclusão que a hierarquia social não ocorria só entre homens e mulheres. Mas, igualmente, de maneira horizontal entre as próprias. É necessário deixar claro que além das condições já mencionadas nas relações entre mulheres, também devemos notar certa lealdade de ambas no que diz respeito à prática homossexual ocorrida entre muitas na colônia. Durante a primeira visita da Inquisição na Bahia, as mulheres diziam não saber que tal prática era pecaminosa e omitiam o fato de – muitas – usarem objetos durante suas relações sexuais – o que era proibido pela lei cristã. A própria Igreja e a ala masculina não conseguia entender como ocorria essa relação de ambas; ocorrendo até certo abrandamento no que diz respeito ao mistério em torno dessas relações lesbianas15.

Mais uma vez para ilustrar o que foi dito sobre a hierarquia social entre as mulheres, o filme ‘Desmundo16 mostraessa representação; uma vez em que se trata de uma mulher órfã portuguesa, que se vê obrigada a casar com um homem brasileiro então rústico, e não se contenta com o destino que lhe foi dado. Tenta fugir inúmeras vezes, se apaixona e se envolve com um mouro. Tudo isso para fugir e não concordar com o destino que a Igreja e a sociedade lhe comprometeu. Vê-se ainda no enredo do filme que, nem todas as mulheres agiam dessa maneira, tendo em vista a situação em que a órfã foi colocada, a sua própria sogra lhe enjeitava. Esse exemplo mostra que nem todas as mulheres assumiam o papel de passivas diante das imposições daquela sociedade.

Como já mencionado, o conceito de gênero e religião estão intrinsecamente ligados no Brasil colonial. Isso porque, a Igreja agia como pano de fundo e era a base justificativa do Estado para que as coisas fluíssem de acordo com interesse de ambos. Sobre o conceito de religião, é valido ressaltar que seu significado de origem latina remete-se a um conjunto de regras e interdições17. O homem, desde os primórdios das civilizações, sempre procurou explicações para suas origens, para o entendimento do mundo e universo o qual ele estava inserido. E essas buscas se deram largamente no campo sobrenatural. O conceito de religião, assim como o conceito de gênero, ganha diferentes significações e reformulações; dependendo literalmente da época, cultura e civilização que lhe adota. Portanto, é permissível concluir que o conceito de religião possui extrema complexidade na sua essência. O cristianismo – principalmente o católico – se encaixa bem nessa complexidade, onde o conceito de monoteísmo pode mudar, dependendo da cultura em que ela sofre influência. Por exemplo: diz-se que o cristianismo é uma religião monoteísta. Porém, para muitos monoteístas não cristãos, o próprio cristianismo – com a crença na Santíssima Trindade – não se configura como monoteísta, já que há a adoração de três divindades. Com a clareza da observância do conceito de religião, iremos também transportá-lo para o Brasil dos primeiros tempos.

É fatídico dizer que a missão do cristianismo no Brasil colonial era de catequizar os pagãos e assim ‘civilizá-los’. O controle da fé cristã se fez pertinente ainda mais com a visita da Inquisição no Brasil, em 1591. Mas, em 1546, já havia condenações semelhantes as que ocorriam na Europa:

É presa uma primeira vítima na Bahia: Pero de Campos Tourinho, Donatário de Porto Seguro, acusado de não guardar os domingos e dias santos, além de autoproclamar-se Rei e Papa de sua Capitania.18

Percebe-se então que a presença da Mesma já se fazia sentir antes de sua chegada oficial. Porém, a historiadora Laura de Mello nos diz que: “só no século XVII é que Roma passaria a se preocupar com a evangelização do mundo colonial.”19 Enquanto isso, a presença da Igreja se constituía por muitos clérigos acusados de crimes heréticos na metrópole. O historiador Ângelo Assis, afirma ainda sobre a realidade religiosa do Brasil colonial do séc. XVI, que a justificativa para a situação da religião oficial ameríndia desses tempos, se deve ao fato de não haver uma rígida organização clerical tal como o era na Europa. 20 Daí a explicação de uma religiosidade mais fluida.Se esta teoria persiste, sobre certo ‘descomprometimento’ da Igreja com relação a essa severidade precisa, então por que o Tribunal do Santo Ofício português deu o ar da sua graça no Brasil em 1591? Segundo Ronaldo Vainfas, “A estreia da Inquisição no Brasil (…), com a primeira visitação do Tribunal de Lisboa à Bahia (…). Justifica-se: na segunda metade do século XVI, o Brasil recebeu muitos cristãos-novos envolvidos com a nascente economia açucareira”21 Sendo que na soma total de condenados, 90% eram judeus ou cristãos-novos.

Como uma tentativa de impor sua soberania em terras brasileiras – já que estava por aqui –, a presença oficial da Inquisição22 buscava exercer controle através de todos pertencentes à sociedade colonial. Tanto é que em 28 de julho de 1591, foram convocados a participar da primeira missa inquisitória o Bispo, os cônegos do Cabido, todos os oficiais da Governança e da Justiça, todos os membros das confrarias religiosas, e mais o povo de toda a Capitania. Após a chegada da Inquisição, 121 pessoas foram se confessar sob a premissa de que seus pecados seriam perdoados, pois estariam em ‘tempo de graça’.

No que diz respeito à religiosidade brasileira, é correto dizer que devido às raízes não católicas brasileiras, estávamos mesmo condenados ao sincretismo. Não só pelas origens indígenas, mas também africanas e judias posteriormente. Vainfas discorre ainda que “não se trata de uma religiosidade que traz resíduos de paganismo, como na Europa (…) mas sim do encontro com as religiões indígenas e, pouco depois, com as africanas e as próprias crenças populares portuguesas”. 23

Com relação ainda a Inquisição no Brasil e sua ligação com as mulheres, é válido ressaltar que tudo o que parecia contrário aos bons valores e comportamentos pregados pela fé cristã, tornava-se alvo de suspeitas. Acreditava-se que a mulher era facilmente atraída pelas seduções demoníacas e que, portanto, elas seriam mais sucessíveis a tais práticas. Existia até uma explicação anatômica da mulher para a justificativa da sua vulnerabilidade “o Diabo gosta de entrar por baixo”24. E ainda, para a Igreja, a feitiçaria, o malefício e tais histórias de cavalgadas noturnas (e de pactos diabólicos, de metamorfoses e de outras coisas extraordinárias) eram maneiras distintas pelas quais os demônios trabalhariam em prol da perdição dos homens. 25 Ora, se para a Igreja a feitiçaria se relaciona exclusivamente a pactos demoníacos, para os que aqui viviam, ganhava outro significado: era uma religião popular, totalmente imersa em conceito(s) religioso(s).

O que se designa como popular nesse contexto refere-se ao sincretismo entre as raízes africanas, indígenas, judaicas e o próprio cristianismo, que juntos resultavam nessa religiosidade popular. E justamente por não haver um clima deveras controlador – tal como era na Europa – havia certa ‘liberdade’ por de trás do discurso opressor de controle social da Igreja na colônia. Sendo assim, por causa dessa ‘liberdade’, os convertidos ao cristianismo se inclinavam para a prática de encantos – principalmente as mulheres – afim de que o seu pedido fosse atendido mais rapidamente, posto que quando o solicitava através das orações ao Deus cristão, esse demorava demais para os suplícios se concretizarem. Essa ‘demora’ no atendimento de pedidos, fez com que fossem acrescentados adjetivos pejorativos e até mesmo eróticos aos santos católicos. Com isso, esses iam perdendo seu prestígio constantemente.

As aproximações das divindades com o mundo material eram constantes, isso quando não se viam humanizados por completo: por tudo jurava-se em vão, invocando os nomes de Deus.26

As mulheres que recorriam às práticas de feitiçaria tinham por objetivo os mais diversos, tanto para o   “bem” quanto para o “mal”. Além do que, as práticas de feitiço não eram solicitadas somente ao Diabo, mas também em acordos com Deus. Magias, rezas, simpatias, adivinhações e etc., poderiam se associar ao mundo da feitiçaria. Pedidos para ‘amansar’ o marido era o dos mais corriqueiros. É interessante notar que nas palavras das rezas promulgadas para realizar o feitiço, é perceptível o sincretismo da feitiçaria – divulgada como diabólica – com o próprio cristianismo:

juro-te por esta cruz de Deus que tu andarás atrás de mim assim como a alma anda atrás da luz, que tu para baixo vires, em casa estares, e vires por onde quer que estiveres, não poderás comer, nem beber, nem dormir, nem sossegar sem comigo vires ou falar.27

Poderes milagrosos relacionavam-se a essas práticas e suas percussoras em sua maioria, eram mulheres. Nomes pejorativos como: Boca Torta, Nóbrega, Arde-lhe-o-rabo, Mija vinagre, eram remetidas as damas da magia. Tanto homens como mulheres recorriam a essas damas para que fossem concretizados seus objetivos – que também falhavam muitas vezes. Vale ressaltar que no que se refere à feitiçaria, esta prática não foi uma unanimidade das mulheres28. Além de fins sentimentais, as mulheres recorriam a práticas de feitiçaria para fins econômicos. É o que mostra parte desse processo:

Expelidos os pinhões, moídos e transformados em pó, [Guiomar] os deu de beber em um caldo de galinha a João de Aguiar para dele se amigar. Em troca, esperava que a não se apertasse muito a ela e a seu marido pela dívida do aluguel das suas casas em que ainda ora moram, pelo qual aluguel ele então apertava muito.29

Fica então, estabelecida à ideia de que se recorria ao sobrenatural sempre que os problemas térreos não conseguissem se resolver por si só. A feitiçaria – e aí se entende como a fusão de crenças indígenas, africanas e portuguesas – nasceu com a tentativa de assimilar o cristianismo de acordo com suas próprias experiências e visões de mundo.  Vale ressaltar que muitas das mulheres acusadas de serem percussoras da feitiçaria no Brasil, vieram do exterior e que (também) por isso, foram expulsas de lá. O que não se esperava, era que no Brasil fosse ganhar tantos ‘seguidores’.

Considerações finais

Averiguando as questões dos conceitos de gênero e religião respectivamente, nota-se a grande proximidade que há entre os dois nesse período do Brasil colônia. Até porque, como vimos também, os princípios da Igreja (inicialmente católica) casava com as metas traçadas pela metrópole, pelo monarca. Foi possível perceber também a enorme diferença e o choque cultural entre os respectivos conceitos na sociedade nativa e de seus estrangeiros. Reconhecidos como povos bárbaros e fadados à ignorância, a Igreja passa por cima destes tentando – e em tese, conseguiu – influenciar o imaginário deturpando a forma de pensar o mundo e de reconhecer o outro.

Com relação às mulheres e suas respectivas conexões com o mundo colonial, propus mostrar as diversas mulheres que coexistiam num mesmo espaço temporal e as diferentes relações existentes entre eles e elas mesmas. Não se pretendeu exibir uma mulher vitimada, mas acima de tudo, de carne e osso; uma mulher correspondente a sua realidade; tal como existem nos dias atuais, embora, o papel competido à mulher atualmente seja altamente expressivo em comparação com aquela mulher dos tempos coloniais. Não se pode negar, porém, que ainda exista (principalmente entre as mais velhas e mulheres do campo) essa mentalidade de uma mulher passiva – em termos – ao mundo que a circunda. Resultado de uma resistência cultural alimentada através de anos.

Pretendeu-se também expor que embora sua tentativa, o cristianismo não conseguiu impor nas terras ameríndias, um mesmo modelo cristão europeu. Uma vez que também não foi levado em conta que uma mistura tão grande de pessoas e ideias numa colônia, só poderia resultar em sincretismo. Ficou entendido que, embora os preceitos da Igreja estivesse embrionado na mentalidade dessas pessoas, esses não ocorreram de maneira exata tal como essa instituição realmente ansiou nas práticas sociais. Concordo com o historiador Ângelo Assis quando ele diz que o que ocorreu no Brasil foi um cristianismo abrasileirado. Esse “cristianismo brasileiro” só poderia ser resultado de uma mistura do oficial com o popular, constituído por diferentes povos, diferentes culturas, diferentes conceitos que se viram condicionados a se fundirem.

Notas e referências bibliográficas

1. SILVA, T.M.G. Trajetória da historiografia das mulheres no Brasil. Politéia (UESB), v. 8, p – 224.

2. SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de Conceitos Históricos. 1. Ed. São Paulo: Contexto, 2005.  p – 167.

3. ABREU, Marta & SOIHERT, Rachel. Ensino de História: conceitos, temáticas e metodologia. (org.) Suely Gomes Costa; cap.: “Gênero e História“, parte IV.

4. LEITE, M. L. M.. História das Mulheres. Revista USP, São Paulo, v. 23, 1994. p – 58.

5. IdemLEITE, M. L. M. p – 61.

6. DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil.(org.): Carka Bassanezi (coord. de textos). 8. ed. – São Paulo: Contexto, 2006. Apresentação.

7. Idem. DEL PRIORE, Mary.

8. RAMINELLI, R. J. . Eva Tupinambá. In: Mary Del Priore. (Org.). HISTÓRIA DAS MULHERES NO BRASIL. SÃO PAULO: 2006.  p – 18.

9. Berger, Peter. A perspectiva sociológica O homem na sociedade. p – 81.

10. ARAUJO, E. O. A Arte da Sedução: Sexualidade Feminina Na Colônia. In: Mary Del Priore. (Org.). HISTORIA DAS MULHERES NO BRASIL. Introdução.

11. NOGUEIRA, C. R. F. “Assim nasceu a bruxaria”, em Revista de História da Biblioteca Nacional. Ed. nº 56, 2010. p -18.

12. CAPRA, J. M. T.; BERGAMO, M.. “Evas e Marias: A Mulher no Brasil Colonial“. Interdisciplinar: Revista Eletrônica das Faculdades Unidas do Vale do Araguaia, Barra do Garças, 2010. p – 12.

13. MENDONÇA, J. G. R.; RIBEIRO, P. R. M.. ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A CONDIÇÃO DA MULHER BRASILEIRA DA COLÔNIA ÀS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, v. 5, 2010. p – 3.

14. Idem. CAPRA, J. M. T.; BERGAMO, M. p – 7.

15. VAINFAS, Ronaldo. “Homoerotismo feminino e o Santo Ofício”. (Org.). HISTÓRIA DAS MULHERES NO BRASIL. SÃO PAULO: 2006. p – 134 e 135.

16. O filme mostra que toda regra há exceção, na medida em que mostra uma mulher que não se satisfaz com a vida que a sociedade lhe impôs. Ver sobre em: Resenha filme “Desmundo”. Fonte: scribd.com/resenhas.

17. Idem. SILVA, Kalina Vanderlei. p – 354.

18. Artigo retirado de ‘scielo books’ sob o tema: MOTT, L. Bahia: inquisição e sociedade. Primeira visitação do santo ofício à Bahia. Salvador, 2010. p -19 e 20.

19. SOUZA, L. M. “O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial”. 1. Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. v. 1. Cap. 2, p – 87.

20. ASSIS, Ângelo. A. F. FEITICEIRAS DA COLÔNIA. MAGIA E PRÁTICAS DE FEITIÇARIA NA AMÉRICA PORTUGUESA NA DOCUMENTAÇÃO DO SANTO OFÍCIO DA INQUISIÇÃO. In: II Encontro Internacional de História Colônia. p – 2.

21. VAINFAS, Ronaldo. “O que a Inquisição veio fazer no Brasil?”. Artigo da Revista de História da BN, 2011.

22. Fundado em Portugal em 1536, pelo rei D. João III, o Tribunal do Santo Ofício tinha como principal atribuição perseguir as heresias – sobretudo o judaísmo, protestantismo e feitiçarias –, acrescentando-lhe com o decorrer do tempo, também o castigo aos bígamos, sodomitas e aos sacerdotes que solicitavam suas penitentes para atos torpes.

23 e 24. VAINFAS, Ronaldo. Entrevista para a Revista de História da BN. Ed. 2010, p – 34 e 35, respectivamente.

25. GONÇALVES, Bruno Galeano de Oliveira. “O mal da bruxaria”. In: XXVI Simpósio Nacional de História ANPUH SP 50 Anos, 2011, São Paulo. p -2.

26, 27 e 29. Idem. ASSIS, Ângelo. A. F. págs. – 5, 6, 7 e 12, respectivamente.

28. Ver sobre em: REIS, J. J. “O pai das adivinhações”. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2010. p. 25.