Este artigo foi produzido para partir de palestra proferida pela Profª. Dra Elvira Souza Lima, na Jornada Pedagógica do Sindicato das Escolas Particulares do Estado de Santa Catarina (SINEPE), realizada no auditório do Colégio São Bento, em Criciúma. Ele pretende ser um caminho para refletir sobre os caminhos da aprendizagem e as contribuições da neurociência neste sentido.

Palestra-Neurociencia-Aprendizagem

Palestra sobre Neurociência e Aprendizagem

A palestrante iniciou dizendo que pedagogia é uma ciência de grande complexidade, pois trata do ensino para a formação das novas gerações. Ela utiliza, para tanto, outras áreas do conhecimento que estudam o ser humano. Para o século XXI, se anuncia uma contribuição importante para a educação formal vinda da neurociência, área do conhecimento que se estabeleceu na segunda metade do século XX. Pelo impressionante número de pesquisas e estudos, a neurociência ampliou significativamente nosso conhecimento sobre como nós, os seres humanos, nos desenvolvemos e aprendemos. Apesar do uso do cérebro ser objeto de interesse particular dos professores, nem sempre há uma harmonia entre a pedagogia e a neurociência.

Se até um tempo atrás a neurociência só tinha acesso ao estudo do cérebro morto, hoje esta limitação não se aplica. As tecnologias atuais permitem estudar o cérebro vivo, incluindo a ação dos neurônios. E as pesquisas afirmam que o cérebro, dada a sua plasticidade, muda a cada seis meses. Inclusive os adultos continuam a ter períodos de desenvolvimento cerebral. Neste sentido, a escola é de grande importância no desenvolvimento cerebral do jovem. As interações humanas, apesar de ocorrerem já no útero materno, adquirem significado ainda maior dentro da escola. E neste sistema de relações sociais, não é possível dissociar o aluno do professor.

A palestrante trouxe três afirmações bem interessantes, que desmistificam ideias já enraizadas na pedagogia. Uma destas afirmações é que nem tudo que aprendemos na escola precisa, necessariamente, ser aplicado na vida cotidiana. Segundo ela, mesmo quando o conhecimento não faz tanto sentido, ele transforma e desenvolve o cérebro, assim como melhora funções para outras áreas de nossa vida. É uma perspectiva interessante considerando que, em discussões sobre o currículo escolar, há um ênfase exagerado no conteúdo fazer sentido para o alunos.

Uma outra afirmação é a questão da escrita. Neste ponto, a palestrante citou o neurocientista francês Stanislas Dehaene, autor da obra “Neurônios da Leitura”. Dehaene diz que a língua materna pode ser aprendida até os sete anos, apesar do tempo de aprendizagem estar diretamente relacionado à complexidade do que estudamos. Assim, a leitura e escrita são essenciais para o aprendizado. Ler todo o dia, algum tipo de literatura, faz toda a diferença em médio e longo prazo, especialmente depois dos 40 anos.

A terceira afirmação tem relação com a memória. Fazer o aluno transformar informações escolares em conhecimento a ser lembrado em longo prazo – e não apenas para o vestibular – é um dos maiores desafios da educação no Brasil. A palestrante alerta que a aprendizagem é um processo longo e demorado, o que contrasta um pouco com o imediatismo em que vivemos atualmente. A memória de longa duração é ativada quando a informação que o professor passa se torna sistematizada. Mas vale lembrar que a memória não é só ganho. A escola tem que lidar com as perdas também, o que significa que algumas informações precisam ser retomadas para que se mantenham na memória. Um outro ponto importante é o papel da emoção no desenvolvimento da memória.

A palestrante também citou – e  não podia ser diferente – a questão da avaliação, um dos pontos de maior conflito na escola. Para ela, o conhecimento não deve ser associado a punição. Na Finlândia, a qualidade da educação tem relação com a resolução de conflitos de conflitos escolares, há um ambiente de cooperação. No Brasil, grande parte dos problemas de aprendizagem está relacionado com a falta de sistematização do ensino e, claro, com as dificuldades de concentração. Ela citou uma experiência na França, onde há uma matéria para desenvolver, no jovem, a capacidade de escutar, o que aumenta a empatia e a concentração.

Por fim, citou que, no Brasil, há pouco suporte para o professor. Segundo ela, deveria ter mais desenvolvimento humano, mais cuidado com o docente, que lida com várias turmas e vários jovens todos os dias. Da mesma forma, no geral, há pouca preocupação em criar, na escola, um ambiente harmonioso que propicie a aprendizagem. Na década de 1920, o psicólogo russo Vygotsky dizia que haveria uma revolução na educação, pelo acesso de todos à escola. Isto vem ocorrendo há algum tempo no Brasil. Porém, por aqui, quantidade não significa, necessariamente, qualidade.

* Este artigo foi publicado no jornal A Tribuna e Diário de Notícias.