Febracorp, apologia ao mau aluno e o retrato da educação brasileira

A educação brasileira não vai bem. No último ano foram cortados fundos educacionais e programas de incentivo, apesar da retórica piegas observada no lema “Pátria Educadora”. Em relação à qualidade de ensino, o problema se avoluma. Dados que podemos obter acessando o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), mostram que, às portas de entrar no Ensino Médio, a maior parte dos alunos brasileiros que frequenta a escola pública não sabe o mínimo adequado em Matemática e Língua Portuguesa. Isso sem contar a qualificação dos alunos brasileiros em testes internacionais, como o PISA.

Febracorp e a apologia ao mau aluno

E quando penso que pior que está não pode ficar, me deparo com o caso da Febracorp, uma instituição de ensino superior, localizada em São Paulo, comandada por dois sócios, Richard Lowenthal e Henrique Gasperoni. Os números surpreendem. Alguns dados apontam que, entre 2007 e 2015, já haviam passado, pela instituição, em torno 60 mil alunos, com crescimento de 40% ao ano e faturamento de R$ 16 milhões. Porém, apesar do aparente sucesso, devemos ter cuidado com o terreno onde erguemos nosso arranha-céu.

Aliás, diga-se de passagem, sucesso não é problema nenhum. Vivemos (ainda) em um estado liberal e todos devem ter os mesmos direitos de ascensão social e profissional. O problema é que os ditos sócios “vendem” a sua imagem como maus alunos que fizeram sucesso no ramo educacional. Desta forma, percebemos o grau de tolice de alguns brasileiros quando, em discurso de autopromoção, criam uma representação daquilo que deveriam combater em seu ramo de atividade.

Assim, em título de matéria publicada no portal Terra, destaca-se: “maus alunos viram empreendedores educacionais de sucesso”. Em matéria veiculada no portal UOL, quase a mesma abordagem: “de piores alunos da classe a fundadores de universidade: conheça a história dos sócios da Febracorp”. Ora, os veículos de comunicação não publicam títulos desta forma, a menos que os objetos da notícia, ou seja, os sócios da Febracorp, assim o queiram.

De fato, para Richard Lowenthal, “ser bom aluno não significa nada, o importante é ter paixão, e eu descobri na educação a minha”. Quer dizer, então, que o dito empresário não se importa em formar maus alunos em sua instituição educacional, desde que tenham paixão? Nesta linha de raciocínio, resultados da aprendizagem e o currículo são irrelevantes, desde que forme alunos apaixonados. Não é possível acreditar neste disparate. Ser bom aluno é fundamental para o sucesso profissional e alcançar bons resultados na escola não beneficia apenas a comunidade educacional, mas o país como um todo.

Afirmar o contrário não apenas é tolo, mas incoerente com aquilo que pensamos da escola. Ainda assim, não surpreende que existam pessoas como o senhor Lowenthal. No país, observamos maus alunos servindo de exemplo e bons alunos acuados e rejeitados sob o estigma de serem “cdf’s, caxias ou puxa-saco dos professores”. Mesmo assim, são os bons alunos que frequentam os melhores cursos universitários. Não sei se é caso da Febracorp.

Por enquanto, a fórmula tem dado certo, ainda que com ressalvas. Ao buscar informações sobre a Febracorp, encontrei alguns depoimentos na página Catho. Algumas críticas são contundentes, acusando a empresa de ter “líderes omissos”, “despreparados” que apresentam “casca bonita e recheio amargo”. Outros dizem que “cerca de 80% dos ‘líderes’ não possuem noção do que é ser um líder, gestor ou mesmo um exemplo”. Pois é, algumas coisas não podem ser aprendidas na escola.