Este artigo é de total responsabilidade do autor e foi escrito por Noé Gomes, professor da rede pública estadual do Rio Grande do Sul e editor do Portal Falando de História.

Blogosfera: um caminho para a legitimação de nosso ofício

Sempre compreendi tanto na condição de acadêmico como professor e historiador atualmente que tenho o compromisso social de servir de interlocutor entre a academia e a sociedade. Recordo-me que uma aula do Estágio em Arqueologia, num momento de debate entre os colegas, a minha querida professora Gislene Monticelli disse algo que ficou marcado na minha memória: “Temos que popularizar a História e a Arqueologia, isto não significa vulgarizá-la!” Ainda naquela aula me lembro de que a discussão tomou um rumo consensual: é preciso que tanto os acadêmicos, bem como os professores e pesquisadores divulguem os seus trabalhos, que interajam com a sociedade sob a pena de se tornarem indivíduos alienados, e que a Universidade tenha um compromisso social, contratando profissionais comprometidos com as transformações sociais, políticas e culturais.

Blogosfera, um caminho para o historiador

Em 2008, ainda cursando História, já há cinco anos, é que dei inicio de maneira discreta e quase que por impulso aos meus primeiros passos na blogosfera. Naquele momento já estava acesa a chama da divulgação da História, presente em minha mente desde os meus primeiros dias na Graduação. Senti desde aqueles dias que é necessário que ocorra uma legitimação, ou seja, um reconhecimento por parte da sociedade. A partir da criação do Blog Falando de História fui inserido no mundo virtual, o qual abre um leque imenso de contatos, assuntos e possibilidades. Foi criado com a intenção de ser um espaço voltado à melhor utilização das ferramentas de divulgação da História no ciberespaço e para um público-alvo amplo: professores, estudantes, entidades de pesquisa, entidades de ensino (universidades, escolas, faculdades) e publico leigo interessado em História.

A preocupação com o tipo de conteúdo veiculado na internet estava muito presente enquanto problema, posto na afirmação de Denis Rolland “História sem historiador”. Alinhei-me a esta colocação e percebi que meu trabalho no blog estava convergindo com sua preocupação. Desde seu início, meu blog teve sempre o cuidado de esclarecer fontes e procedências das informações veiculadas.

E nesse sentido, penso que o processo de regulamentação da profissão que tramita nos corredores de Brasília faz parte de um processo muito maior que a própria oficialização do ofício do historiador. De fato, urge a regulamentação. Temos que lutar por isto, precisamos ser reconhecidos como profissionais. Porém pergunto: e a nossa legitimação perante a sociedade? Somos vistos como úteis para a sociedade brasileira?

A meu ver de nada vale a regulamentação se não houver um processo de legitimação do ofício do historiador, digo isso no sentido de demonstrar a real importância dos historiadores. E logo entendo que os blogs podem desempenhar este papel. Claro, que não se pode esperar que esta legitimidade seja dada de forma gratuita pela sociedade. Na verdade, ela é uma conquista coletiva e como tal precisa ser construída de maneira que haja um entendimento do papel social que nós historiadores temos.

Assim como o sociólogo Betinho que legitimou a sociologia, ao lutar contra a fome, Osvaldo Cruz no início do século XX com o processo de vacinação da população brasileira entre tantos outros intelectuais brasileiros que romperam com os academicismos de suas áreas e foram para rua, assim deve ser com nós historiadores.

Não estou dizendo que no Brasil não houve historiadores que tiveram um papel social na transformação social do país, seria injusto não citar a contribuição de homens como Raimundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Nelson Wernewck Sodré, Sandra Pesavento, Ieda Goutfleid e tantos outras o outros historiadores que tem nos trazido releituras importantes. O que digo simplesmente é que os historiadores possuem uma responsabilidade social e que não podem se eximir dela.

Neste sentido, a blogsfera, segmento que orgulhosamente faço parte, tem este compromisso. Todos os blogs que leio expressam isso, vejo-os como uma irmandade, onde as ideias ligam as pessoas cujo local de integração são estes microssites. Saímos da zona de conforto, para produzirmos ou para compartilharmos o que nos tocou.

Não pretendo ser autobiográfico, longe disto, mas a partir desta experiência é que construí um TCC , cuja nota final foi de 9,5 com o título de “A Blogosfera e a popularização do conhecimento histórico no século XXI” em que a pesquisa ali exposta reflete a relevância dos blogs para a difusão e popularização da História no século XXI, num recorte do universo dos blogs voltados à História. Olho para o nosso segmento e tenho a plena convicção de que a sociedade nos legitima, pois estamos retribuindo as nossas formações. Por isso posso dizer que o trabalho como blogueiro tem me trazido um sentimento de alegria por poder estar ajudando a sociedade na indicação de materiais e eventos.

Ao término do meu TCC percebi algumas coisas muito importantes: a primeira é que o objeto desta investigação está ligado ao tempo presente e como tal é um grande desafio. Foi ao longo da construção deste TCC que consegui visualizar a História do Tempo Presente como grande campo a ser explorado. A segunda, é que toda esta vivência e a sua análise tem nos provocado a meditar sobre o tipo de história que está sendo veiculada na internet. E esse é um desafio para nós historiadores, já que a Filosofia já tem trabalhos sobre a internet, destaco Michel Heim e Pierre Lévy, a Sociologia com Manuel Casttells e Dominique Wolton e enquanto isso o que escutei na minha banca? “Noé, este tema poderá sofrer muita resistência para pesquisas na academia, terás que sempre estar legitimando-o, sempre demonstrando a sua real relevância”.

Ou seja, mais uma vez o desafio de servir de interlocutor entre a academia e a sociedade está cada vez mais latente. Talvez, cabe a nós sermos os seus condutores. As resistências ao nosso trabalho poderão aparecer, porém é necessário que os blogs sejam alimentados por acadêmicos e historiadores, que estejam em contínuo estudo e no meu caso sinto que o próprio blog me obriga a estar em busca de informações, conhecimentos e materiais.

De fato a previsão de um dos meus avaliadores se concretizou. Ao apresentar o tema num anteprojeto de seleção de Mestrado em uma das universidades federais no interior do Rio Grande do Sul obtive como resposta de que esta temática não teria um cunho histórico. Na tentativa não de responder a esta afirmação ao qual discordo, mas de trazer um elemento de reflexão, extraio uma fala de Antonie Prost , ao qual transcrevo:

[…] É possível fazer – faz-se – história de tudo: clima, vida material, técnicas, economia, classes sociais, rituais, festas, arte, instituições, vida política, partidos políticos, armamento, guerras, religiões, sentimentos (o amor), emoções (o medo), sensibilidade, percepções (os odores), mares, desertos, etc. Pela questão é que se constrói um objeto histórico, ao proceder um recorte original no universo ilimitado dos fatos e documentos possíveis […] (PROST, p.75)*

Se é possível fazer a historia de qualquer objeto, pergunto então: porque os blogs não podem serem considerados agentes históricos? Vejo os historiadores blogueiros como elementos históricos de um contexto atual e que me valho da parábola bíblica do bom semeador, visualizo-os como semeadores. E assim como nesta narrativa toda boa semente, gera bons frutos. Pois como dizia Geraldo Vandré na sua música “Pra não dizer que não falei de flores”,”Esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer!” Está na hora de assumirmos os nossos papeis de fato, e nos legitimarmos como profissionais que desenvolvem em seus ofícios a plena cidadania.

* PROST, Antonie. Doze Lições de História. Autêntica:  Belo Horizonte, 2012